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sexta-feira, 31 de julho de 2020

JULHO VESTIDO DE PRIMAVERA EM MANAUS

FOTO: PROF.ME. MAURO BECHMAN, 2020.


Por: Mauro Jeusy Vieira Bechman*


E se vai o mês de Julho.

Neste mês que finda, a esperança veio em três vacinas possíveis para o enfrentamento da Pandemia que maltrata a humanidade, uma chinesa, uma russa e outra britânica.

Nas regiões mais frias do Brasil, a pandemia avança. Na quente Manaus, os dados recuam (mesmo aqui, há desconfiança característica do amazonense) enquanto nossos irmãos e irmãs no interior do majestoso Amazonas seguem numa via crucis, sem hospital, sem vacinas e sem registros confiáveis.

Na capital da Amazônia, a loucura do novo normal, com sua velha forma de ser, tira a máscara. Pessoas saem às ruas e transformam as máscaras em acessórios mais voltados à vaidade que a necessidade de auto cuidado. Nos parece até que se quer driblar o vírus, como se isso fosse possível.

Gente nas ruas e no sufoco dos transportes coletivos urbanos perigosamente bailam diante da necessidade de consumir como seu "ritual de vida". Ledo engano, a vida é muito maior. Fala-se em voltar às aulas da rede pública, sem vacinas asseguradas para todos, sem consenso médico, sem áreas no planeta que ostentem o selo "Covid Free". E a vida vai bailando arriscadamente em meio à ignorância e esperteza dos que "acham que sua opinião é ciência". 

Noutro plano, os ventos mudam a direção. Em julho, das quatro direções ficou a de pedras em paralelepípedo. Talvez seja o maior sinal da mudança de estação na vida do observador de pássaros, quem sabe uma espécie de primavera inesperada também.

Ainda não há primavera, mas Julho já se vestiu.

Valeu Julho.

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* Mestre em Sociedade e Cultura pela Universidade do Amazonas. UFAM.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A INVENÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA

FOTO: APARELHO DE TELEVISÃO. 1979. AUTOR: M. BECHMAN, 2014.
Ultimamente temos nos deparado com uma série de produções nacionais no campo da televisão e até em livros voltados a leituras e re-leituras dos eventos que marcaram a vida cotidiana do pais nas décadas finais do século 20.

Neste sentido, vemos um esforço das nossas elites que detém o poder da media utilizar-se disto largamente na geração de produtos que visem uma apreensão e consequente moldagem sobre o passado coletivo. Assim, a produção desta memória coletiva envolve os interesses de unificar valores padronizando lembranças de vivências sejam elas frutos de boas e ou más experiências no tempo, alimentando não apenas o saudosismo sempre presente na memória popular como também servir de elixir para o alimento dos anseios e esperanças, direcionados muitas vezes por necessidades temporais  e individuais, sejam, estas de indivíduos ou grupos sociais.

Os anos 1970 e começo de 1980 estão na media.  Grandes corporações já produzem essa reinvenção da memória coletiva a partir de produção cinematográfica e das teledramaturgias diárias.

As novelas focadas nos anos 1970 revelam um grau de alienação e despolitização, seja pelo fato de externalizar apenas fatos de um cotidiano mais banal e menos reflexivo, seja pela ausência da externalização de um cotidiano mais duro endossado por um cenário político mais delicado com a supressão das vontades democráticas. As classes subalternas  são pouco retratadas reforçando a opção política ideológica das produtoras, em certo sentido, destruindo o protagonismo do cotidiano coletivo das classes menos abastadas e alienando-as da consciência coletiva.

Assim, torna-se perigoso para a formação da historiografia e da memória nacional que apenas restritos grupos midiáticos forneçam elementos para a interpretação da memória coletiva, tendo em vista, apenas sua visão unilateral eivada de suas vontades politicas e ideológicas. É difícil acreditar que durante vasto tempo da vida os anos 1970 foi uma eterna discoteca! Altíssima inflação, pobreza urbana, arrocho salarial e possibilidades de crescimento econômico das classes mais pobres quase impossível.

No Amazonas particularmente em Manaus, ruas mau iluminadas, esburacadas, água de péssima qualidade e a classe media depauperada, quase não viajava. pois viajar era sim...em Manaus, para heróis ou bandidos! Mas, neste tempo difícil uma coisa nas telenovelas e revistas foi presença certa: o amor..ainda se morria de amor por alguém nesta década...ainda se vivia para o outro...isso é inegável e está cristalizado na memória dos homens e mulheres que viveram as décadas de 1970 e 1980.

A construção do senso comum se dá hoje em outros patamares mantendo o perfeito objetivo de ofuscar a reflexão sobre a produção do tempo histórico e do espaço geográfico. O final dos anos 1970 marcaram sobretudo, o incio de uma supremacia midiática da televisão sobre o rádio, os jornais e as revistas na produção e invenção da memória e do imaginário coletivos.

A televisão é um gigante que vai se mostrar em sua plenitude na década subsequente com poder politico capaz de dar "direção" ao país, e subverter o conteúdo presente na mente das pessoas, aliada a invasão cultural americana em todos os campos da vida social marginalizando a cultura das regiões brasileiras, fundadas há séculos desde a conquista deste território até o enlace das populações nativas com a cultura ocidental colonizadora.

Neste sentido, estamos diante de um processo de invenção da memória coletiva, promovida largamente pelas chamadas mídias eletrônicas, reinventando o passado e re-significando o futuro...ou seja, dando uma mensagem direta ao presente.