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terça-feira, 7 de setembro de 2010

OS ESTRANGEIROS DO INTERIOR DO AMAZONAS

FOTO: REDES NAS EMBARCAÇÕES AMAZONENSES. 2012. AUTOR: CUCUNACA, 2012.
Nesta postagem, buscarei pontuar algumas considerações a respeito da relação entre os candidatos aos cargos políticos no estado do Amazonas e o seu conhecimento sobre o interior do estado.

O ESQUECIDO INTERIOR

Durante todos estes anos que acompanho o processo eleitoral no meu estado, tenho observado que o discurso sobre o interior sempre se repete. Este interior tão ventilado e parafraseado durante o processo eleitoral, na realidade, se revela enquanto uma grande incógnita no imaginário dos cidadãos amazonenses. Um dos elementos importantes para esta compreensão é de fato a ausência destes políticos da cena cotidiana no palco da vida dos munícipes.

Muitas das vezes, quem conhece mais o interior são os assessores destes políticos e muitas vezes só oportunamente os conhece quando viajam em férias e ou em algum feriado prolongado. Em realidade não existe um contato mais intimo e daí é muito fácil esquecer quem os olhos nem sempre vêem.

O pouco conhecimento sobre a realidade da vida dos munícipes no Amazonas, decorre do descaso com uma politica que não seja politicagem e ou reedições de projetos experimentados em fracassos.

Contraditoriamente, o interior que não reside no interior dos candidatos, hoje apresenta aspectos daquilo que o "progresso" vende: insegurança e falta de urbanização. Ainda sob este aspecto, podemos verificar que o interior e algumas das suas cidades médias, vêm se urbanizando e consequentemente se desumanizando com o aparecimento de invasões (ocupações irregulares), surgimento de gangs juvenis que beiram o semi-analfabetismo, casos de pedofilia, prostituição infanto-juvenil e problemas de saúde ambiental, os mais graves.

Contraditoriamente, este interior que não reside no interior de muitos candidatos, continua sua sina de "Esquecido".
Neste sentido, para os citadinos de Manaus - a metrópole cefalópode, os amazonenses do interior aparecem mais como se fossem "estrangeiros" pois não emitem uma leitura de si e sobre sua realidade, são apenas reconhecidos nestes períodos eleitorais e a leitura parcial feita pelos candidatos só revelam o desamor pelos interioranos, mergulhados na generalização da alcunha de "Esquecidos".

Como cidadão peço apenas que olhemos para o nosso interior e espiando bem,como diz o caboclo, descobriremos que nada ou quase nada sabemos de nós mesmos. Para o nosso desespero!

Saudações Amazonenses e Amazônicas!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

AMAZONAS: AMAZÔNIAS

FOTO: PAVILHÃO AMAZONENSE. AUTOR: CUCUNACA, 2014.

Nesta postagem, buscarei falar do gigante que há em mim, num formato livre para que possamos entender o amor que nutrimos pelo lugar em que nascemos e cuja história e geografia só poderiam nos orgulhar. Neste sentido, este texto será um texto sentimental em que pesa a visão do geógrafo e o sentimento do cidadão.

AMAZONAS - O GIGANTE DO NORTE

O fascinio que tem-se a descrever o Amazonas em suas espacialidades expostas e intrisecas, por si só já nos conduzem a um mistério de reinvenção constante de sua história, de sua cultura e de sua geografia.
Do meu tempo de criança, sempre dinâmico, aprendi a desenhar barcos regionais na escola primária Santa Luzia, cujas simbologias sempre traziam a idéia de nacionalidade brasileira e da bandeira do Amazonas. Era a década de 1980 e os nossos clubes de futebol ainda lotavam os estádios da Colina e o Vivaldão. O Nome dos clubes eram efetivamente diferentes, como o Rio Negro cujas cores são preto e branco e o Nacional de cores azul e branco. Esta feita uma das rivalidades mais importantes do futebol do Norte, o clássico RIONAL. Nos domingos de clássico, pela manhã, não se falava outra coisa senão o clássico. No almoço, o tambaqui na brasa com tucupi e farinha do uareni e vinho de bacaba e açai, e para o mais velhos é claro, cervejas e caipinhas. Não poderia faltar o som de Chico da Silva que sempre fez músicas de sucesso.
Mas, o Amazonas ainda se manifestava em mim na vida simples dos meus pais, vindos de Itacoatiara para iniciar uma vida nova com a chegada da Zona Franca em 1967. Traziam consigo, seus remédios, seus costumes, suas histórias. Raramente íamos ao médico, pois os remédios eram feitos em casa, pois nos quintais criavam-se galinhas, patos, porcos e os canteiros possuiam plantas medicinais e a ritualização sempre caracteristica de um povo cuja existência estava intrissecamente ligada a natureza.
O boi bumbá que conheci e amei ainda existe nas periferias de Manaus, metamorfeando-se para sobreviver nos tempos atuais. A dança do cacetinho, meu Deus, que riqueza com sua encenação e drama, uma luta pelo amor de uma índia, entre irmãos! Sentia que tudo isto era o Amazonas.
No governo militar de José Lindoso, fizeram-se programas para divulgar a cultura do Amazonas nos álbuns de figurinhas que davam prêmios em troca de notas fiscais. Nas escolas, o dia 5 de Setembro eram um maravilhoso período de reverência a elevação do Amazonas á categoria de província. Desfiles cívicos davam um brilho especial ao Dia do Amazonas com as escolas públicas e privadas expondo garbosamente o orgulho de ser amazonense.
Do Amazonas que habita em mim, tenho carinho exponencial pelo Rio Amazonas, este imperador da Amazônia, cheio de lendas, ritos e história. O Rio Amazonas do Encontro das Águas em que habita o espirito imortal do guerreiro Ajuricaba, que jamais aceitou ser escravo e por isso no encontro das águas negras do Rio Negro com as águas barrentas do Solimões entregou-se á História. Personagens que povoam o Rio Negro ainda hoje nas lendas dos povos da Amazônia que o colonizador exerno e interno faz questão de encobrir.
O Amazonas dos rios, igarapés, furos, cachoeiras, do clima de momarço, quente e úmido, do sorriso moreno dos caboclos e da dança encantadora das caboclas morenas de olhos amendoados. Amazonas dos magestosos buritizeiros que estão destruindo na minha cidade em nome do progresso que apaga minha identidade me transformando em um não-ser.
Amazonas do calor do povo simples que ainda acolhe o aventureiro como "parente" herança das suas muitas nações indígenas. Amazonas de Ajuricaba, de Tabatinga, Itamarati, Tefé, Parintins, dos caboclos brancos de Itacoatiara, do peixe e da farinha de Uarini, de Manacapuru e do Iranduba, dos índios maués, da terra de Maruaga e Comprido que ousaram reagir ao colonizador.
Neste Amazonas que habita em mim, habitam várias amazônias e é tão grande a sua riqueza que dá até vontade de morrer... de viver!

Saudações Amazonenses e Amazônicas!

domingo, 18 de julho de 2010

PRIMEIRO ADEUS AO "COLOSSO DO NORTE"

FOTO: ESTÁDIO VIVALDO LIMA. 2008. AUTOR: CUCUNACA, 2008.

Nesta postagem, farei um mergulho á arquitetura de minhas lembranças como torcedor de futebol e como cidadão desta Amazônia que me ensinaram a ignorar e que aprendi a amar. Peço apenas que leiam como um grito da arquibancada, para que a poronga não se apague e a floresta escureça mergulhando no pântano do esquecimento.

O COLOSSO DO NORTE - O VIVALDÃO

É domingo, na cidade dos Manaús. O rádio fala dos jogos do campeonato brasileiro, os jornais tem na sua primeira página, o convite sugestivo ao futebol. Eu, meus irmãos e meus pais vamos ao Estádio Vivaldo Lima. Os ônibus andam tão lotados que seguem suas trajetórias tombando com pessoas em cima numa espécie de surfistas urbanos e dependurados em portas e nos seus para-choques. Que sufoco!

É domingo, e escutamos as músicas de Chico da Silva, ao mesmo tempo que fazemos o almoço dos amazonenses com tambaqui na brasa e alegria que se mistura a ansiedade para a ida ao estádio.

Ao olhar de um menino de 10 anos de idade, vejo realmente um "Colosso", cercado por gente em filas quilométricas. Nos seus arredores, multidões caminham de todas as direções, com alegria e ansiedade param o tráfego e com gritos e bandeiras revelam uma paixão imortal pelo futebol.

O estádio está ficando cheio e eu pequenino vejo pintado as cores das bandeiras dos clubes do Amazonas nas arquibancadas e pergunto ao meu irmão mais velho o significado de cada combinação de cores e, ele me explica cada uma desta combinações. Mas vejo uma desproporção nas cores. Os dois lados que se opõem diametralmente, se opõem ao longo das mais extensas faixas do estádio, de um lado, as cores azul e branca e de outro as cores preta e branca. Estávamos diante de uma simbologia que superava os anos e tinha raízes fincadas na histórica rivalidade entre os times do Nacional Futebol Clube (Naça) cujas cores são o azul e o branco e o Atlético Rio Negro Clube (Galo da Praça da Saudade) nas cores preto e branco.

A medida que o público ia se acomodando, a rivalidade entre os torcedores ia se acirrando, a ponto de na torcida do galo ninguém passava com as cores que lembrasse o azul e vice-versa. O clássico Rio-Nal ganhava espaço no meu coração e na minha memória.
Frequentei o estádio nos anos 1980 e vi campanhas memoráveis do Nacional neste estádio que agora vejo desmoronar com o passar de incompetentes dirigentes de clubes de futebol.

Na campanha de 1987, no campeonato brasileiro, o Nacional vencia a todos que vinham jogar em Manaus, tínhamos uma das melhores médias de público e a cada vitória hordas de torcedores soltavam fogos pelas ruas nos arredores do estádio. As torcidas eram um show a parte. O Galo tinha a "Galo Gay" - torcida criada para compensar a ausência das mulheres do estádio e o Naça, cujos torcedores sempre foram mais fervorosos e violentos tinham a "Selva Azul" e outras que não lembro o nome direito. Mas lembro que muitos grandes clubes do sudeste e sul vinham ser derrotados pelos nossos times e a paixão de fato era muito forte. Ainda hoje quando escuto Chico da Silva, minhas lembranças voltam áquele tempo.

Não pretendo aqui, ignorar que cada momento tem seu tempo e este foi um dos momentos que me trazem saudade apesar das dificuldades de uma década de crise econômica nacional. Mas ver o palco dos nossos clubes desaparecer, me faz refletir que uma construção como o Vivaldão não merecia ter um destino como este, de desaparecer em favor de um markentig ambiental em que o turismo é mais importante que a alegria de viver dos torcedores do lugar. 

Da mesma forma que, acredito que o silêncio de nossa elite social e econômica, transformaram-se num crime contra a reflexão e a construção de uma memória espacial que reafirme o futebol no Amazonas. Aliás, nossos clubes como o Rio Negro, o Nacional, São Raimundo, Sul América são quase centenários e em nada quanto á história deixam a desejar para o restante do país.

Fui tentar testemunhar a demolição do Vivaldo Lima e fomos proibidos de fazer imagens internas. Voltei frustado para casa, Eu e meu filho Mauricio, registramos poucas imagens externas dos escombros do estádio, pois não pudemos dizer adeus ao Colosso do Norte!