sexta-feira, 23 de outubro de 2026

MANAUS 357 ANOS, A COBAIA DA "CIVILIZAÇÃO"

 

FOTO: M. BECHMAN.
AUTOR: CUCUNACA, 2026

Por: Mauro Bechman*

Talvez seja, essa Geografia que nos condena.a estas muitas alcunhas ao longo de sua breve história de cidade. Em busca de novos recursos para matéria prima industrial, a aventura da ciência na expedição de La Condamine pela Amazônia no século XVIII, chegou-se ao látex que vai dando início a uma cruel ruptura civilizacional com a transformação do espaço geográfico. 

No final do século XIX, a cidade dos Manaú, ganha status de urbe dos trópicos úmidos onde o velho forte de São José sucumbe ante o aterro de igarapés, as edificações neoclássicas, as ruas em paralelepípedo, um porto flutuante e um mercado com duas faces, um espécie de olhar para o rio Negro e outro para as ruas que avançam para o interior da floresta. 

Sob o sol dos trópicos úmidos, o tempo e a economia natural vão sendo substituídos abruptamente pelo relógio e pelo livro-caixa. 

A arquitetura urbana, expressão máxima da força civilizatória européia se impõe na paisagem, mesclando e adaptando-se no que o espaço e no que a inteligência humana permitem. Prédios e casas com tetos altos, assoalhos com passagens de ar frontais são registros de limitações que a Geografia lhe impõe. 

Não é fácil domar este espaço amazônico, o rio se revolta e a cada enchente ele se apresenta aos olhos de todos em pleno centro histórico de Manaus. O Amazonas, o imperador dos rios, mostra que nem sempre a civilização vence. Seria mesmo possível uma cidade européia no meio da floresta?

Num segundo momento, destacamos a imposoição do modelo zona franca de Manaus, um modelo industrial exógeno à regiao. Com seus galpões e ritmos frenéticos de produção, o signo da velocidade, da máquina que altera os padrões de pensar e exercer o trabalho e consequentemente a vida em sociedade. 

Num gigantesco espaço de natureza, um espaço industrial, onde máquinas se confundem com pessoas e pessoas passam a ser números e apenas recursos necessários a produção, a cidade vai sendo metamorfeada.

No início da zona franca, a dificil adaptação laboral, trabahadores desmaiam nas linhas de produção, vômitos e até abandono de emprego. A natureza humana sofre para que um modelo de civilização seja implantado. Desse modo, Manaus faz novamente parte deste experimento civilizacional.

Chegamos ao século XXI e com ele a prosperidade econômica em meio a perda dos lugares naturais como o balneário do Parque 10 de Novembro, a Cachoeira do Tarumã, os igarapés da Ponte da Bolíva e a as mangueiras da avenida Constantino Nery. A cidade é agora juma metrópole regional sendo o 6º PIB do Brasil.

Em 2020 a cidade enfrenta a Pandemia do Sars Cov 2. Os governos estadual e federal alinhados a Extrema Direita assumem a gestão da crise. Creio que os amazonenses incrédulos não conseguiam acreditar que em Manaus por conta da temperatura quente o virius viesse a sobreviver e se espalhar. Mas se espalhou. Caos hospitalar e a rede de atendimento colapsa. Covas são feitas às pressas e carros frigorificos estacionam perto de hospitais. Os lugares de socialização como igrejas, escolas, faculdades e as ruas vazias.

Na esteira dos discursos, a negação da Pandemia, enquanto a fila para sepultamentos aumentavam nos cemitérios. A cidade está vazia, escondida em seus medos.

E, a classe dominante mais uma vez não se mostra como elite. Busca furar filas para atendimento, para hospitalização e para a vacinação contra o virus, enquanto permite que tratamentos experimentais em pacientes sejam feitos em Manaus, a partir do uso de hidroxocloroquina. Centenas de pacientes perdem a vida e não fosse apenas isso, a negligencia logistica impede que o oxigênio chegue aos hospitais e mais amazonenses perdem a vida.

A cidade cobaia recebe doses cavalares de estupidez e ignorância.

Agora em pleno 2026, durante as eleições para governos estadual e federal, a cidade é sufocada por fumaça oriunda das matas e florestas a partir de incêndios criminosos. 

E o céu azul com nuvens brancas de Manaus e de várias localidades amazonenses se fecham. Incendiários miseráveis ateiam fogo em espaços verdes e municípios próximos. A fumaça extensa e densa vai sufocando e cobrindo a cidade de Ajuricaba por 15 dias.

Em meio a luta política pelo poder, uma corrente ideológica que acredita que a missão do homem é dominar a natureza, rebuscando a velha retórica da oposição entre a civilização e a barbarie ou estado de de natureza.

E, novamente falta ar aos amazoneses. . Seu "amaldiçoado sol" não aparece no céu há dias enquanto temos a cidade com o pior ar do mundo.

Lembramos dos tempos de magistério superior para a discplina de gestão dos recursos naturais em que dizíamos, que a umidade impediria de grandes incêndios pela natureza e composição de nossas florestas, úmidas, higrófilas, densas. Nosso triste engano, criminosos passaram a usar combustível com alto poder de inflamação.

Com o passar dos dias, presenciamos novamente o silêncio das classes dominantes, criminoso silêncio combinado com a retórica das forças estaduais e municpais de combate a incêndios.

Negligência e negação das autoridades regionais e locais, colocaram a vida de bombeiros e brigadistas em risco, para que em likes e comentários de internet, favorecessem um grupo político adepto da supremacia e dominio do homen sobre a natureza, ao que chamam de civilidade.

Hoje, o município de Autazes está em chamas, alguns incendiários são detidos, mas nada é aprofundado nem pelas autoridades e nem pelos meios de comunicação de massa.

Nunca se sabe quais interesses e quem são os financiadores destes crimes. Entidades patronais e empresarias que se orghulham de defender a Zona Franca como modelo vitorioso de desenvolvimento ficam caladas expondo suas vergonhas em se dizerem que apoiam o meio ambiente. Um verdadeiro "silêncio dos inocentes".

Nosso desejo que Manaus seja nos próximos anos, seja a cidade verde, a cidade morena, a cidade sorriso e não mais a cidade cobaia deste doloroso processo de dominação chamado erroneamente de civilizatório.

Com o coração cheio de alegria e os pulmões cheios de cinzas ousamos dizer

Feliz Aniversário Manaus!


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*Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas UFAM (1909).

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