sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A RAZÃO E A LOUCURA DAS ARTES CONTRA A BANALIDADE DO MAL E A SÍNDROME DE CASSANDRA

FOTO: FILÓSOFO WALQUIMAR BORGES.
AUTOR: CUCUNACA, 2026

A RAZÃO E A LOUCURA DAS ARTES CONTRA A BANALIDADE DO MAL E A SÍNDROME DE CASSANDRA

Autor: Walquimar Borges


Se a história do pensamento humano nos sugere algo, talvez seja a hipótese de que a transformação social não decorra de certezas prontas, mas da fresta aberta pela aliança entre duas forças opostas: a "boa loucura" da arte e a clareza rigorosa da ciência. A arte traz o delírio poético não como resposta final, mas como a busca mais visceral pela liberdade humana que constitui um ensaio constante para romper com a rotina petrificada e reacender o espanto. 

A ciência, por sua vez, consolida-se como alicerce da razão e motor da evolução precisamente porque duvida: usa o método para questionar o óbvio, desmontar ilusões e desmascarar consensos apressados. Não por acaso, as artes e a o conhecimento científico são defenestrados pela pós-verdade e pelo preconceito implementado pelos segmentos ultraconservadores e isso se percebe calramente aos ataques às universidades públicas.

A arte e a ciência só transformam o mundo quando saem dos gabinetes e galerias para ocupar a vida comum de forma democrática. Não se trata de uma união conceitual, mas do movimento vivo dessas duas forças ao alcance de qualquer pessoa. É quando a expressão artística e o conhecimento científico se tornam acessíveis no dia a dia que surge uma práxis real, capaz de desacomodar certezas e alterar a dinâmica social.

Esse impacto cotidiano atinge diretamente a dinâmica da sociedade contemporânea, profundamente anestesiada pelo “Último Homem” nietzschiano — um indivíduo acorrentado ao conforto medíocre e incapaz de criar novos valores. 

Esse mesmo sujeito se converte com facilidade no burocrata ordinário que é o home comum irreflexivo de Hannah Arendt, operando como uma engrenagem que cumpre ordens sem qualquer julgamento ético ou senso de responsabilidade moral. Para selar esse cenário, a Síndrome de Cassandra se manifesta no negacionismo e na cegueira ultraconservadora, uma recusa deliberada da realidade em que a pós-verdade e o preconceito prevalecem mesmo diante dos alertas explícitos da ciência.

É justamente nessa fratura que a presença democrática da arte — ao provocar o afeto que arranca o indivíduo da apatia — e da ciência — ao instigar a dúvida que destrói a obediência cega — surgem como vias fundamentais para resgatar a capacidade crítica e a dignidade humana contra o automatismo da nossa época.

Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann pelas atrocidades nazistas, observou que a barbárie totalitária não dependia exclusivamente de monstros eivados de perversidade extraordinária, mas sim da figura do "homem comum irreflexivo ". Esse homem comum — também conhecido como o "burocrata ordinário" — é aquele que atua sem convicções ideológicas profundas, movido unicamente pelo carreirismo, pelo zelo técnico e pelo cumprimento cego do dever.

É neste cenário que se percebe a essência da "banalidade do mal", que reside na incapacidade ou recusa deliberada de exercitar a faculdade de julgar. A este fenômeno 

Arendt chamou de ausência de pensamento, ou seja, a irreflexão que faz com que o indivíduo comum abdique de se colocar no lugar do outro e renuncie ao autoexame. A obediência passiva converte-se no motor invisível que viabiliza a destruição de direitos e a naturalização de atrocidades. O homem comum banaliza o mal e contribui para o nascimento e a perpetuação da barbárie.

O homem que banaliza o mal abdica de sua autonomia intelectual e encontra ressonância direta na figura filosófica que Friedrich Nietzsche chamou de o "Último Homem". Com efeito, o Último Homem é o ser humano que desistiu de aspirar a algo maior e se contentou com a mediocridade confortável; neste sentido, reduz a felicidade ao bem-estar raso, à ausência de risco e à busca constante pelo calor morno do rebanho.

Percebe-se que esse diagnóstico deixou de ser uma abstração filosófica para se tornar a realidade do século XXI no qual, em vez de utilizar as ferramentas contemporâneas para libertar a humanidade, o Último Homem capitula diante do controle e do comodismo,sufocando o "caos interior" necessário para criar novos valores e dar à luz uma "estrela 

dançante". Se é necessário muito caos para gerar uma estrela, o Último Homem desistiu de vê-la brilhar ou mesmo de vê-la nascer: conformou-se a um caos domesticado.

O homem comum irreflexivo é também o Último Homem que, ao exercer seus labores tecnocráticos e burocráticos, adequa-se às circunstâncias implantadas sem reflexões e sem contraposições, domesticando o caos — como na canção Panis et Circenses, de Caetano Veloso e Gilberto Gil: "as pessoas na sala de jantar estão ocupadas em nascer e morrer".

A convergência entre o burocrata irreflexivo de Arendt e o Último Homem de Nietzsche resulta na Síndrome de Cassandra, conceito utilizado por Jean-Marc von der Weid para descrever a paralisia e a negação social diante de crises anunciadas. Inspirado no mito da profetisa que previa tragédias reais, mas era sistematicamente ignorada, o termo explica 

por que alertas fundamentados sobre rupturas democráticas, colapsos ambientais ou violência são desprezados: por preguiça moral e impotência psíquica, a sociedade prefere manter ilusões confortáveis a assumir os custos da resistência.

A urdidura da sociedade contemporânea revela-se no entrecruzamento de três diagnósticos cruciais: na ausência de pensamento tecida por Arendt engrena-se a passividade do executor; no regaço morno do Último Homem de Nietzsche adormece a busca pela verdade; e na recusa do aviso de Cassandra, denunciada por von der Weid, ergue-se a blindagem perversa contra o real. O horizonte resultante é o de um rebanho 

resignado, onde o empobrecimento moral se disfarça de virtude e a desinteligência deixa de ser ferida para tornar-se estética e modo de vida.

Perante essa maquinaria de torpor, cabe aos pensadores, cientistas e artistas o papel incendiário de agitar a quietude desse sono dogmático. 

Reconstruir a capacidade de pensar exige desvestir a razão de seus mantos aristocráticos, transformando-a em farol público acessível a todos — lâmina afiada contra as sombras das fake news e dos delírios conspiratórios —, ao mesmo tempo em que a criação artística reaviva o fogo da paixão e o compromisso ético com o vir-a-ser.

A arte e a ciência só transformam o mundo quando saem dos gabinetes e galerias para ocupar a vida comum de forma democrática. Não se trata de uma união conceitual, mas do movimento vivo dessas duas forças ao alcance de qualquer pessoa. É quando a expressão artística e o conhecimento científico se tornam acessíveis no dia a dia que surge uma práxis real, capaz de desacomodar certezas e alterar a dinâmica social.

Esse impacto cotidiano atinge diretamente a dinâmica da sociedade contemporânea,profundamente anestesiada pelo “Último Homem” nietzschiano — um indivíduo acorrentado ao conforto medíocre e incapaz de criar novos valores. 

Esse mesmo sujeito se converte com facilidade no burocrata ordinário de Hannah Arendt, operando como uma engrenagem que cumpre ordens sem qualquer julgamento ético ou senso de responsabilidade moral. É nesse cenário de negação e pós-verdade que se consolida a Síndrome de Cassandra: aqueles que apontam a realidade concreta — amparados pela ciência e pela arte — são encarados como loucos, histéricos ou alarmistas por uma maioria ultraconservadora que se recusa a enxergar os fatos. É justamente nessa fratura que a presença democrática da arte e da ciência surge como via fundamental para resgatar a capacidade crítica e a dignidade humana contra o automatismo da nossa época.

Arte e razão erguem-se, assim, como os antídotos fundamentais contra a decadência do rebanho. Se a lucidez científica confere a ossatura analítica, a coragem de desarmar narrativas falaciosas e o dever de encarar a realidade sem véus, a arte — embalada por sua "boa loucura" e pela vertigem da liberdade radical — devolve ao espírito humano o espanto, a sensibilidade e a ousadia de rasgar o cotidiano domesticado. Pela responsabilidade histórica que carregam, cientistas, pensadores e criadores devem popularizar o saber e tensionar as certezas mornas que anestesiam o presente.

A verdadeira esperança não se aninha no repouso covarde do Último Homem, mas na força coletiva de cultivar o pensamento autônomo e reafirmar, na tapeçaria do tempo, a criação imperiosa dos valores que celebram a vida.

Acreditar no poder da arte e na clareza da ciência é recusar a rendição ao absurdo. A práxis do artista e o rigor científico não podem ser luxos encastelados: precisam infectar o cotidiano de forma democrática. Hoje, quem aponta a verdade e expõe os fatos é reduzido a Cassandra — diagnosticado como "louco" por uma maioria entorpecida pelo preconceito e pela desinformação. Popularizar a razão e o sensível é o único modo de fazer a verdade ser finalmente ouvida, interrompendo esse descalabro antes que a sociedade deságue de vez na barbárie ultraconservadora.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

• ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubia de Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1963.

• MEDEIROS, D. O Último Homem. Coluna Cuidados Humanos, Revista Humanitas / Portal Neo Mondo.

• NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

• VON DER WEID, Jean-Marc. A síndrome de Cassandra. Revista Será? / Democracia e seus Desafios, 2022.


________________

*Professor de Filosofia, Pedagogo, Bacharel em Direito, Pós-graduado em Filosofia e Psicanálise, Mestre em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Nenhum comentário:

Postar um comentário