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| FOTO-MONTAGEM. ARTISTA QUADRINHEIRO, CUCUNACA,2014 |
A brincadeira começou. O Homem botou sua máscara e saiu pela cidade espalhando medo e terror. Ele se acreditava, o destemido Homem de Máscara, usava uma roupa especial, de borracha e casca de plástico, um turbante negro com viseiras de acrílico. O Homem de Máscara, juntou-se aos seus e passou a usar seus manos monstros contra o sorveteiro da Praça XV de Novembro, depois derrubou a banca de tacacá de Dona Lindoca e socou intensamente o seu Luís, guardinha da pracinha. O Homem de Máscara junto com os seus, esbofetou meninas que penteavam suas lindas tranças, vindas dos mocambos do Barranco e as que se orgulhavam de seus cabelos longos e lisos como cunhãs de Poronominaré.
Chutou os cachorros vira-latas a cada quarteirão e as idosas, senhoras aposentadas das noites boêmias com suas vozes frágeis e idéias ferozes, xingavam e apontavam os dedos magros na viseira negra do Homem de Máscara e outras senhoras gordas, gritavam de suas janelas contra a Fera de Máscara, mas ele não parou. Bateu no padre, frei Fulgêncio Capella, o levantado pelas barbas,empurrou as freiras e ameaçou o coroinha. O monstro de máscara seguia pela rua Tapajós,comendo lixo e vociferando em busca de encontrar o ouvidor de passarinhos. Enfrentou a primeira barreira, eram as meninas moças do colégio IEA, elas avançaram sobre ele, mordendo e estabanadamente batendo com as mãos e aos gritos. Ele enquanto firme, as afastava do caminho.
Quase indomável ao descer em direção a avenida Tarumã, tropeçou num suporte de vendedor de picolé da massa, ajoelhou nos asfalto que escondia o paralelepípedo do Café Avenida e um valente gavião carijó - criado pela menina de saia florida - o atacou na cabeça que imediatamente se curvou, encostando o queixo ao peito protegido por sua casca de plástico. Cai no chão quente pelo sol imponente que doma as manhãs na Amazônia e em dois minutos inerte, rompe a paralisia do corpo monstruoso, levanta-se e cabisbaixo retorna pelo mesmo caminho que inciou sua trajetória de horror, ele segue a passos ora cadenciados ora acelerados, agora humilhado é ameaçado, cuspido, e até querem linchá-lo, mas o vendedor de algodão-doce da Praça da Saudade não deixa e nem o funileiro da praça Dom Bosco.
Uma moça lhe oferece uma flor, ele ignora, seguindo cabisbaixo e, abandona parte de sua casca, o exoesqueleto vai ficando pelas ruas, aos pedaços, como fantasias de escolas de samba após um desfile de carnaval. Loucos de cabelos longos e barbudos o aplaudem e ele acena despretensiosamente com uma das mãos. Segue o caminho solitário e com um gesto cansado, o Homem de Máscara, tira sua carapaça da cabeça e, mostrando a todos que aquele monstro era na verdade apenas um menino, agora sem máscara. Sem retóricas e sem seu pretenso poder. E assim, finalmente o ouvidor de passarinhos pode novamente ouvir a orquestra da vida em paz nos abacateiros e caramboleiras da cidade dos Manaú.
