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quarta-feira, 15 de abril de 2020

DOME SEUS DRAGÕES

FOTO: PROF. MAURO BECHMAN.
AUTOR: CUCUNACA, 2020.

*Por: Mauro Jeusy Vieira Bechman


Os dragões, eles sempre nos aparecem, do meio do nada.

Alguns deles foram criados para nós, para nos impor limites. Outros dragões, nós mesmos criamos no interior de nossos subconscientes e até os alimentamos diariamente.

Os Dragões nos acompanham a vida toda.

Para muitas pessoas, eles são como carcereiros e não temem as Joanas D`arcs, nem os cavaleiros com suas reluzentes espadas. Para outras, são apenas companheiros da prudência, uma espécie de fera que temos que conviver com lucidez para que eles não nos queimem ou devorem.

Nestes tempos difíceis, dome seus dragões e faça o que tiver que ser feito. Nunca a fé foi tão complemento da ciência. Por isso, devemos compreender com lucidez os enfrentamentos postos a nossa frente.

Para enfrentar os dragões são necessários alguns apetrechos:  a prudência, a ciência e a fé.

A prudência deve ser a tutora dos nossos comportamentos, balizados por nossa capacidade de desenvolver com inteligência a nossa auto disciplina, o nosso auto-cuidado e o nosso amor para com aquelas pessoas que estão ao nosso lado partilhando de nossas alegrias e desventuras, de nossas vitórias e esperanças.

A ciência, um dos Sete Dons do Espírito Santo de Deus deixados aos apóstolos de Jesus, deve ser a nossa poderosa lança para o enfrentamento dos dragões sejam eles reais ou imaginários.

E por último, a . Nossa força e energia motoras de nossas atitudes e esperanças. Se não alimentamos nossa fé, nossa campanha contra nossos dragões estará mais propensa ao insucesso. Então, não percamos a Fé.

Por isso, dome seus dragões! Assim como aparecem do meio do nada, ao nada voltarão. E, esta receita serve para os Dragões de verdade e os imaginários.

Salve a prudência, a ciência e a fé!


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* Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia e Processos socioculturais. UFAM.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

UM ATÉ BREVE AO CENTRO DE MANAUS


FOTO: MANIFESTAÇÃO PÚBLICA.
 AUTOR: CUCUNACA, 2015.

Um até breve ao Centro de Manaus


Hoje já não moro mais no Centro Histórico de Manaus. Prá lá deixei uma parte inseparável da minha vida. Acho que agora acabou.

Ali cada passo meu tem uma história para contar.  E são muitas. Optarei pela primeira pessoa do singular. Acho mais sadio para falar de uma cidade como Manaus, uma metrópole. 

Nas pedras do paralelepípedo português da Vila Dona Marciana, ficaram o cansaço, a luta e as esperanças em meio o temporal da chuva que me faz lembrar que estou na Amazônia e no meu amado Amazonas. Lá procurei viver intensamente, cada espaço e cadafalso. Em cada passo, um compasso marcado de história, a minha e a de outros sobreviventes da cidade. Pelas ruas, alguns poetas, barbudos, mendigos, pequenos assaltantes, saltimbancos dos cruzamentos, os  bons operários, anarquistas, filósofos, comunistas, os sapateiros intelectuais, os reformadores de móveis cientistas sociais, com a nobreza dos aristocratas, os padres e o maravilhoso  divino mundo da Igreja, também os salafrários parasitas do sistema político de castas e estamentos urbanos. 

Lá ficaram os imigrantes americanos: os alegres colombianos, os altivos peruanos, os ciganos indígenas venezuelanos com suas vestimentas estonteantes em cores vivas, que penso eu, se acreditam de fato herdeiros da Terra, e os gigantes haitianos e seus chapelões com suas mulheres negras de rara beleza na dura vida de frutas e picolé da massa, elas e eles não se ajoelham. Os meus bons caboclos, com sua tez de sol, seu sorriso largo, operários da vida e ainda assim honrados. As doces caboclas, trabalhadoras, do sorriso de Yara e da fibra das amazonas de Gaspar de Carbajal. E eu, apenas Cucunaca.

Há política em toda parte no Centro, entre palavras e negócios. O protético ético, na bela missão de transmitir amor pelos gestos e pelas palavras, educar com todas as forças, o filho amado para entregar ao mundo  e assim também a minha missão, como a do comerciante de coração grande, ou melhor dizendo, de um grande coração. Em tudo isso há um nobreza impressionável. Mas tu me perguntarias:  E as praças históricas, a da Polícia? a da Saudade? a do Congresso? e o Largo de São Sebastião e a Praça da Matriz? Ah...  elas ainda são do povo!

Cucunaca

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

LEMBRANÇAS DE UM AMOR SEM FIM

FOTO-MONTAGEM: CARLOS SANTIAGO. ACERVO, 2017.

LEMBRANÇAS DE UM AMOR SEM FIM, via whatsapp

Por: Carlos Santiago*


Hoje acordei pensando nela.

Ela me amava muito... e adorava ficar laçada em mim...

Fui um homem muito desejado...Até a minha voz balançava seus instintos desejosos...

Já choramos abraçados e também choramos sozinhos...

Ela sempre me dizia:"Espera por mim". Eu sempre falava: "estou ocupado".

Enquanto todos olhavam a lua, ela sempre via os meus olhos...

Aquele amor era tão imenso que conquistei até um diploma de doutor.

Nunca lhe disse o quanto a amava de verdade...Tinha medo, bobo medo, um medo que deixou ela ir para um lugar distante...

Um lugar distante e o meu coração ainda cheio de amor...

A sobrevivência num mundo difícil e a busca de objetivos contribuíram também para o meu egoísmo...

Mas o mês de dezembro já vem e as samambaias estão mais lindas nesta manhã.

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*Cientista político e advogado.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O HOMEM DE MÁSCARA

FOTO-MONTAGEM. ARTISTA QUADRINHEIRO, CUCUNACA,2014
A brincadeira começou. O Homem botou sua máscara e saiu pela cidade espalhando medo e terror. Ele se acreditava, o destemido Homem de Máscara, usava uma roupa especial, de borracha e casca de plástico, um turbante negro com viseiras de acrílico. O Homem de Máscara, juntou-se aos seus e passou a usar seus manos monstros contra o sorveteiro da Praça XV de Novembro, depois derrubou a banca de tacacá de Dona Lindoca e socou intensamente o seu Luís, guardinha da pracinha. O Homem de Máscara junto com os seus, esbofetou meninas que penteavam suas lindas tranças, vindas dos mocambos do Barranco e as que se orgulhavam de seus cabelos longos e lisos como cunhãs de Poronominaré. 

Chutou os cachorros vira-latas a cada quarteirão e as idosas, senhoras aposentadas das noites boêmias com suas vozes frágeis e idéias ferozes, xingavam e apontavam os dedos magros na viseira negra do Homem de Máscara e outras senhoras gordas, gritavam de suas janelas contra a Fera de Máscara, mas ele não parou. Bateu no padre, frei Fulgêncio Capella, o levantado pelas barbas,empurrou as freiras e ameaçou o coroinha. O monstro de máscara seguia pela rua Tapajós,comendo lixo e vociferando em busca de encontrar o ouvidor de passarinhos. Enfrentou a primeira barreira, eram as meninas moças do colégio IEA, elas avançaram sobre ele, mordendo e estabanadamente batendo com as mãos e aos gritos. Ele enquanto firme, as afastava do caminho.

Quase indomável ao descer em direção a avenida Tarumã, tropeçou num suporte de vendedor de picolé da massa, ajoelhou nos asfalto que escondia o paralelepípedo do Café Avenida e um valente gavião carijó - criado pela menina de saia florida - o atacou na cabeça que imediatamente se curvou, encostando o queixo ao peito protegido por sua casca de plástico. Cai no chão quente pelo sol imponente que doma as manhãs na Amazônia e em dois minutos inerte, rompe a paralisia do corpo monstruoso, levanta-se e cabisbaixo retorna pelo mesmo caminho que inciou sua trajetória de horror, ele segue a passos ora cadenciados ora acelerados, agora humilhado é ameaçado, cuspido, e até querem linchá-lo, mas o vendedor de algodão-doce da Praça da Saudade não deixa e nem o funileiro da praça Dom Bosco. 

Uma moça lhe oferece uma flor, ele ignora, seguindo cabisbaixo e, abandona parte de sua casca, o exoesqueleto vai ficando pelas ruas, aos pedaços, como fantasias de escolas de samba após um desfile de carnaval. Loucos de cabelos longos e barbudos o aplaudem e ele acena despretensiosamente com uma das mãos. Segue o caminho solitário e com um gesto cansado, o Homem de Máscara, tira sua carapaça da cabeça e, mostrando a todos que aquele monstro era na verdade apenas um menino, agora sem máscara. Sem retóricas e sem seu pretenso poder. E assim, finalmente o ouvidor de passarinhos pode novamente ouvir a orquestra da vida em paz nos abacateiros e caramboleiras da cidade dos Manaú.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

TOME SEUS VENENOS

FOTO: GRAFITE DE ARTISTA DE RUA. MANAUS. 2014.

Ele acorda, pensa no Dia, pensa no seu "Deus". Levanta, tudo muito igual a todos e a todos os dias. Ele repete tudo, seu segundo nome é repetição. Ele se nutre da comida suja dos porcos, todas as manhãs, todas as tardes, todas as noites. Lhes preenchem a caixinha, vazia. Pensam por ele. Sonham por ele. Ele pensa que pensa. Ele sonha que sonha. Ele dorme. Está nu e não vê. Segue o ritual, come feno, toma venenos, finge que é feliz. Ele não sabe o que é ser feliz. Ele não sabe a razão da dor, pois pensa que não tem dor. Liga as caixas de mantras (repetição e chicotadas) ouvido estourado, segue para o trabalho. Visão 25%. Ele ainda acha que possui sentimentos. Ri com sua boca de metal, saliva tóxica e voz grunida. Veste suas vestes para aparentar sadio. Ótimo disfarce. Os iguais o reconhecem. "-Ele é dos nossos!". Segue seu destino de vaso vazio. Um pássaro lhe sobrevoa e vai embora. Não há nada a fazer por essa espécie de nada. É o fim do dia de trabalho, ele volta pra casa e antes de dormir, toma seus venenos! Para repetir de novo, todos os segundos de sua anti-vida.

Silva, do Castro.

domingo, 20 de abril de 2014

GALO DE PÁSCOA: ESTÓRIA DA SEMANA SANTA EM MANAUS

FOTO: GALO DE QUINTAL. MAUÉS. AM -AUTOR: M.BECHMAN, 2014

A Semana Santa em Manaus possui ingredientes interessantes e curiosos. Um destes é a tradição, agora lenda, que após a Paixão de Cristo na Sexta-feira santa, inicia-se um período de silêncio e virgília e os "Antigos" pessoas mais idosas sempre transmitiram uma forte cultura oral em que afirmavam que os ladrões agiam livremente durante a sexta-feira e o sábado de Aleluia, por isso, tínhamos que resguardar a casa e os quintais em que eram abrigados os animais domésticos como patos, galinhas, marrecos, porcos e outros perfazendo uma economia doméstica de quintal.

Nos anos 1980 esta tradição continuou fortemente transmitida pelos antigos moradores dos bairros centrais e mais velhos de Manaus.

Certo dia, quando moleques, resolvemos "roubar galinhas" da vizinhança para realizarmos um acampamento e comer a galinha assada. 

Nos agrupamos então e fomos deixando o sábado ficar mais tarde, escolhemos o quintal a ser visitado e nossos amigos mais corajosos foram pular o muro de uma vizinha que tinha um galinheiro grande e que poderia nos prover para o frango assado de páscoa. 

Escondidos sobre o muro e a escuridão, um dos nossos amigos no silêncio "Puxa" uma das aves fechando seu bico para que não houvesse estardalhaço e fossemos descobertos. A escuridão era tanta que este nosso amigo não viu o que puxou por entre as aves que estava no galinheiro e para nossa surpresa e decepção, ele havia pego um Galo e não uma galinha frustando nossos planos de comer uma galinha caipira assada na Páscoa...mas, também fizemos isso só por molecagem pois de fato não éramos ladrões e nem tínhamos a pretensão de sê-los.

Fomos assar o galo de páscoa e foi tão difícil que acabamos torrando o galo na fogueira que fizemos no quintal de um de nossos vizinhos...o galo estava tão duro..tão duro que desistimos dele e compramos uns ovos para cozinhar ao fogo para não perder a molecagem...e por fim, naquele ano nossa Páscoa começou com um Galo e terminou com Ovo para comemorar e manter uma tradição cuja origem não se sabe ao certo quando começou e quem começou, mas que ainda resiste no imaginário popular dos amazonenses e manauaras.

Feliz Páscoa! Cristo Ressuscitou!
 Aleluia! Aleluia! Aleluia!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

CONTO: UM ANARQUISTA NO CARNAVAL


Foto: Multidão nas Ruas. Autor: Geóg. M. Bechman, 2012.

Aconteceu em 29 de Maio 1933 numa pequena cidade incrustada na Selva Amazônica, no Brasil, em que dois jovens revolucionários foram infiltrados pelo Movimento Operário Internacional - MOI para viabilizar a Revolução Operária Internacional em que as classes operárias chegariam triunfalmente ao poder, reeditando a História da civilização.

O primeiro a chegar de "Bajera" via rio Maranhõn, foi Gustave der Montes, militante comunista belga, poeta, andarilho e marcador de ciranda. Ao desembarcar no Ródo na cidade de nome indígena Manaós, Gustave matriculou-se no curso de História da Universidade do Maranhõn, primeira instituição de ensino superior do Brasil, sendo um aluno aplicado e camarada fiel ás lides e manuais doutrinários do Partido Comunista Belga. Morando no apertado bairro dos Tócos, foi se familiarizando com aquela cidade doce e dura em excesso e com um povo cuja constituição étnica assemelhava-se aos japoneses e que possuíam hábitos estranhos á sua cultura como tomar "Tacacá" ou ainda comer fatias de melancia nas ruas - um verdadeiro escândalo aos olhos de um europeu ateu e anti-capitalista.

Com duas semanas de atraso após a chegada de Gustave, chegou á cidade dos Manaós, o segundo membro encaminhado pelo MOI para viabilizar a utopia do Partido Belga. Tratava-se do jovem T. Rex de Almeida, anarquista estadunidense, exímio atirador, tocador de charango e viciado em política. Alojou-se na periferia da cidade, num bairro  chamado Praça Portugal. Matriculou-se em Geografia na mesma Universidade de Gustave, onde sempre estava entre os melhores alunos do curso ganhando prêmios em eventos científicos de sua área do conhecimento e frequentando cafés filosóficos e bares sujos do mundo suburbano intelectual da cidade.

O encontro entre os dois revolucionários se deu precisamente ás 22h03mn do dia 15 de junho de 1933 num barzinho nas imediações da Rua Emílio Moreira no centro de Manaós. Nesta noite, os dois abriram o baú que Gustave trouxe da Valônia com as orientações e equipamentos necessários á empreita revolucionária. Leram atentamente os manuais, fumaram duas caixas de cigarro barato - comprados a retalho e arquitetaram o plano que mudaria para sempre suas vidas.

Estrategistas, os dois passaram a panfletar por toda a Universidade convocando a todos os estudantes, jovens, adultos, mulheres e populações marginalizadas pelo modo de produção capitalistas a juntarem-se a eles e construírem uma nova sociedade...O ponto de encontro da deflagação do movimento seria o cruzamento das ruas Ajuricaba com a Carvalho Leal em frente ao Cinema Ypiranga, exatamente ás 18h do dia 09 de Fevereiro de 1934 em todas as forças populares estariam reunidas para derrubada do sistema capitalista.

Seguindo doutrinariamente as orientações dos manuais comunistas, os dois jovens revolucionários transvestiram-se de disfarces exóticos que os escondessem no meio da multidão e pudessem insulflar o povo á revolta e conclamar a tomada de poder.

Na hora, local e data marcadas, os jovens revolucionários entusiasmados com a possibilidade de passarem para a História, chegaram com seus disfarces e em meio a uma grande balbúrdia e euforia popular, ficaram pasmificados, não compreendendo o porquê de tanta alegria popular. Uma multidão cantava com alegria e bebidas, transvestidos de diferentes personagens ao som de uma banda de metais em ritmos alucinantes e estimulantes. Os dois foram abraçados pela multidão que os celebrava como deuses e mesmo sem saber ao certo o que comemoravam, chegaram a imaginar que a vitória sobre o Capitalismo já havia ocorrido e por esta razão a multidão comemorava nas ruas.

Os dois revolucionários beberam, dançavam e beijavam todas as mulheres que no meio da multidão estavam sem se importarem com o amanhã... 13 de fevereiro de 1934

Mas...o amanhã chegou. Era quarta-feira, 13 de fevereiro de 1934 e os dois candidatos a heróis, começaram a despertar com o barulho das carroças e o calor da manhã ensolarada. Desorientados pelo "porre" que tomaram na comemoração do dia anterior, pediram informação a um funcionário público que limpava a rua no momento. O servidor público informou que na noite anterior, havia ocorrido uma das festas mais importantes do país e que todos comemoram frenética e simultaneamente. Abismados, os jovens demoram, mas passaram a crer que aquela festa toda não era pela Revolução Internacional, mas sim, porque era Carnaval e foi duro acreditar que eles, no meio da multidão, representavam apenas: o Diabo, disfarce de Gustave e o Árabe, disfarce de T. Trex de Almeida...

Desiludidos, os dois jovens revolucionários...passaram a chorar e a rir ao mesmo tempo e entre soluços e lamentações, perceberam que aquele seria o mais importante e belo instante de suas vidas...o seu primeiro carnaval!

Saudações Carnavalescas!